quarta-feira, 17 de março de 2010

DESSERVIÇO NA INTERNET

Tão logo teve início o calendário de vacinação contra o vírus da gripe suína começou a "rolar" na internet, em profusão, um E-Mail intitulado "Não Tomem A Vacina" falando horrores do produto. A propósito, recebi de um parente que é médico, o comentário a seguir:

"... Poucas vezes vi tanta besteira escrita num email. Eu provavelmente tive gripe suína no ano passado, mas mesmo assim já tomei a vacina e vou aconselhar minha esposa a fazer o mesmo.
Vocês realmente acham que o ministério da saúde iria recomendar e disponibilizar esta vacina se houvesse tanto risco assim? Os riscos são semelhantes aos de outras vacinas e os graves são raríssimos (exemplo:.Síndrome de Guillain Barre)."

Recebi também a "coisa" de várias fontes e desde início suspeitei ser lixo eletrônico. Por tal motivo não repassei. Toda e qualquer vacina, como foi dito, tem algum tipo de risco, mas no caso é remotíssimo.

Devemos isto sim, protestar na internet contra a exclusão dos idosos considerados "sãos" (se é que existem) do programa de vacinação governamental. Ora, porque tal maldade com os velhinhos e velhinhas aposentados que este ano receberão apenas a vacina contra a gripe sazonal?Bastaria, o governo ter adquirido (e dinheiro existe) maior quantidade de doses para não carregar nas costas o possível ônus de privar pessoas do dom supremo da vida, gente que a despeito da idade avançada poderia continuar ainda alguns anos sobrevivendo neste reino da insensatez oficial onde poucos têm tanto e milhões estão privados de tudo, até de vacina.

Sim, é claro: Quem puder pagar deve procurar uma clínica especializada. Mas, alem do custo para muitos proibitivos, em inúmeras cidades do Brasil não existem tais clínicas. Ainda mais: A margem de importação pela iniciativa privada é escassa considerando a grande procura por parte dos governos que têm prioridade quase absoluta na aquisição da vacina


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

SIMBOLOS, FANTASMAS DA CIDADE

SÍMBOLOS, FANTASMAS DA CIDADE (II)

José Alberto Somavilla

Que sabemos sobre esses alienígenas que aqui chegaram

Durante séculos, sem registros precisos na história,

Queimando as matas, maculando os ares,

Alheios sempre aos encantamentos da paisagem?


 

Vieram sem pejo de seus escravos, sapiências e estrovengas,

Difundiram costumes, doces uns, outros indignos,

Usando perversamente águas e fluidos que nunca mereceram,

Transmitindo a prole talvez o gene da destruição.


 

A ferro e fogo marcaram espaços, procriaram, quase se perpetuaram

Com seus açucares, gados e frutinhas vermelhas.

Não poderão isentar-se, na história, de malefícios que causaram

Aos deslumbramentos ancestrais dessas montanhas

E aos mansos semblantes das gentes que aqui viviam.


 

E quanto a nos, retardatários... Símbolos Redimem-nos?

A Mantiqueira, igrejas, casarões do vale já não gritam...

As fazendas consomem-se em ruínas, maldições,

Regurgitando pecados homiziados nos porões do esquecimento:


 

Crianças sem lares, sem tabas, sem quilombos,

Vítimas de eitos criminosos, vícios, devassidões,

Mestiças, sem cor de pele definida, sem tradições,

Cruzamentos malsinados de tatu com cobra, como se dizia,

Emergem, são fantasmas nos grotões da mentira e da arrogância

E proliferam sem esperanças, sem alegria, prostituídas,

Sulfúreas, perambulando insones, meio cinzentas,

Quase no sopé do Itatiaia, bem defronte a siderúrgica.    


 


 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

SÍMBOLOS, FANTASMAS DA CIDADE...
J A Somavilla-Janeiro de 2010
Quem são vocês, alienígenas, que aqui chegaram
Desde tempos indignos, sem relatos na história
Alheios sempre as paisagens magníficas?
Vieram com mesinhas, estrovengas... Enraizaram-se,
Queimando a mata, usufruindo ares e frutos,
Devorando com suas bestas verdes paragens,
Sorvendo águas e fluidos que nunca mereceram.

Muitos, vagando ao acaso, prosseguiram,
Ignorando a miragem por cobiças mais distantes.
Mas aqueles que a ferro e fogo se perpetuaram
Não poderão isentar-se dos malefícios que causaram
Aos deslumbramentos ancestrais dessas montanhas
Com suas frutinhas vermelhas, opiáceas, ilusórias.

E quanto a nos, retardatários?Símbolos Redimem-nos?
A serra, a matriz, a ponte, não gritam, mas denunciam
Um pecado imperdoável relegado ao esquecimento:
As puri-i meninas tentaram em vão viver, limpar-se
De sêmens empesteados e arrogâncias brancas.
Ressurgem agora Inverossímeis, sulfúreas, sem alegria,
Perambulando insones nos limites da noite interminável,
Bem no sopé do Itatiaia, bem defronte a siderúrgica.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Ponte, A Serra e Outros Fantasmas

Quem é você que há séculos passa por aqui?
A ninguém jamais importou a paisagem...
Predadores vêm, ficam e se perpetuam
Somente pelos ares e frutos desta terra,
Devorando verdes paragens, azuis momentos,
Sorvendo águas límpidas que nunca mereceram.
Respeito os que não se dignaram a parar
Em buscas de vertentes ilusões longínquas:
Estes, ao menos por ora estão isentos
Nos crimes sem remissão contra o deslumbramento.
Nos outros, inconseqüentes, sugamos toda beleza,
O encanto, o sortilégio dessa montanha.
Redime-nos um nada, a nossa velha ponte,
Gestando mansamente a memória da cidade
Que se mostra alheia aos dois lados do rio, da eternidade,
E ao pecado também atemporal que assombra:
Ninguém percebeu que a puri, a mulherzinha,
Depois do ato brutal do foreiro em frente a serra,
Tentou purificar-se com a manhã, a flor do campo
Nascida bem no umbigo de uma siderúrgica.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

RAPOSA SERRA DO SOL:MAIS UM CAPÍTULO


Um Ministro do Supremo vota com a consciência, saber jurídico e o conhecimento dos fatos.Caso seja relator do processo deve ter em mente as consequências que poderão advir de suas palavras inscritas nos anais, a serem cumpridas a ferro e a fogo, caso prevaleça em plenário sua posição.O mesmo se deve esperar de temas já apreciados, de grande relevância, como por exemplo, o uso das células tronco, o nepotismo, as listas sujas de candidatos, impugnações que amarelecem no contraditório, etc. Haja Ministério Público, haja polícia, haja vontade heróica para transformar julgamentos em ações.
Poucos brasileiros talvez saibam que neste 27 de Agosto entrou em julgamento a demanda em torno da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, na qual se cogita do indiscutível direito que certas etnias índias têm quanto às terras que ocupavam ou pelas quais passavam ancestralmente.Fosse somente isto seria muito simples, mas o embrulho é maior, eis que subjacentes estavam, e estarão, até o juízo final, assuntos como soberania e defesa nacional, possibilidade de conflito entre irmãos, propriedade privada com a retirada de famílias da área, discriminação de brasileiros miscigenados, a saga de fazendeiros que acreditaram na expansão da fronteira agrícola, contrabando, desmatamento, o ordenamento jurídico do país, o desmesurado arbítrio de funcionários de segundo nivel que destinaram, a revelia da opinião pública, vastas áreas a poucos, enfim, o próprio pacto federativo.
E tudo isto vem acontecendo a década e meia num cenário onde se misturam fronteiras internacionais desabitadas, imensas riquezas minerais, igrejas em litígio, assinaturas de tratados contraditórios, impedimentos físicos de livre trânsito nas estradas federais, seletividade de quem pode ou não adentrar as reservas e, o que é mais grave, ações visivelmente deletérias de organizações estrangeiras fora de qualquer controle que há muito fazem a cabeça dos índios sob as vistas complacentes, pasmem, de órgãos governamentais e políticos da situação com mandato na presente legislatura.
Não foi possível acompanhar o relatório do Ministro na íntegra.O que se pode auferir de ponderáveis trechos de sua explanação foi mais ou menos o seguinte: o iminente jurista teceu doutas e transcendentais considerações em torno da fraternidade que deve existir entre povos, governos, cidadãos, famílias, etc. Igual período de tempo consumiu para nos ensinar que cabe aos governantes, em todos os níveis, criar condições para que subsista, em quaisquer condições, a decantada fraternidade que ele crê com substância jurídica, lembrando que tal componente dos ideais da Revolução Francesa nunca foi institucionalizado, diferentemente da igualdade e da liberdade...
Mas era isto que a sociedade esperava do preclaro Ministro? A resposta fica uma tanto prejudicada.Porque? Ora, numa quadra de nossa história em que leis não são cumpridas, outras nem "emplacam" nos costumes, os criminosos de colarinho branco não ficam presos, a violência impera a despeito de aparatos policiais e imensos gastos governamentais sem resultados, poder-se-ia pensar em por em prática seu ilustre discurso, quase um repositório de boas intenções que tangenciam a ingenuidade?Ora, deveria o iminente magistrado conversar com os juízes que exercem seu mister no Rio de Janeiro e em tantos lugares onde o banditismo cria zonas liberadas e coisas piores.Não há nem haverá governos, polícias, ministérios públicos capazes de por em prática suas teorias.Enquanto isto Roraima espera agonizante.
Respeite-se seu voto propugnando pela demarcação contínua nas absurdas dimensões propostas pelo governo.Mas seu relatório ficaria melhor em uma hipotética festa de formatura em um curso de advocacia.Lá certamente receberia aplausos dos jovens ainda não calejados e infelicitados nas lides.Não encontraria a contradita-lo o Ministro Rezek ,do qual muitas vezes se valeu em seus estudos e pareceres.

domingo, 24 de agosto de 2008

A FUNAI E A FEDERAÇÃO

HÁ DIAS TOMEI CONHECIMENTO DE OPORTUNO ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL O GLOBO COM O TÍTULO ACIMA, ASSINADO POR DENIS ROSENFIELD, DANDO CONTA DE ATOS ADMINISTRATIVOS EXORBITANTES NA IDENTIFICAÇÃO E DEMARCAÇÃO DE RESERVAS INDÍGENAS COMO A RAPOSA SERRA DO SOL, EM RORAIMA, E OUTRA, AO SUL DE MATO GROSSO DO SUL.TRANSCREVO UM PEQUENO TRECHO:... "BASEADA NUMA PROFUSÃO DE ATOS ADMINISTRATIVOS, EDITADOS POR ELA MESMA, E FORA DE QUALQUER CONTROLE, A FUNAI, SOB O MANTO DA JUSTIÇA SOCIAL, DEIXOU TRANSPARECER SEU POUCO APREÇO PELO DIREITO DE PROPRIEDADE, E, ATRAVÉS DESTE, PELO ORDENAMENTO CONSTITUCIONAL DO PAÍS...”.
PROCEDIMENTOS ADMINISTRATIVOS DE AUTORIDADES GOVERNAMENTAIS SÃO PREVISTOS NA LEI MAIOR, MAS APLICÁVEIS APENAS A SITUAÇÕES ESPECÍFICAS QUE NÃO SE CONFRONTEM COM A LEI OU QUE POSSAM POR EM CHEQUE A HARMONIA ENTRE PODERES.FAZER LETRA MORTA DESTA VERDADE ÓBVIA É TENTATIVA DE SUICÍDIO, VERDADEIRO TIRO NO PRÓPRIO PÉ.
OUTROS COMENTÁRIOS SERIAM DESNECESSÁRIOS APÓS ESTA INTRODUÇÃO, MAS NÃO ME FURTO AO DEVER DE CONSCIÊNCIA DE ADVERTIR MEUS LEITORES, COM A ÊNFASE POSSÍVEL, PARA QUE NÃO SOBREVENHA NO FUTURO UM CAOS INSTITUCIONAL QUE A NINGUÉM INTERESSA.FORÇOSO É RECONHECER, NO CENÁRIO EM QUE VIVEMOS, QUE AS ESPERANÇAS DE CONTER TAIS DESVIOS SÃO TÊNUES, EMBORA OS ARGUMENTOS CONTRÁRIOS A INGERÊNCIAS INDEVIDAS DE FUNCIONÁRIOS MOVIDOS POR RAZÕES IDEOLÓGICAS SEJAM GRITANTES.

NUMA QUADRA EM QUE O PODER LEGISLATIVO SE MOSTRA FRACO, TENDO MUITOS DE SEUS INTEGRANTES COMPROMETIDOS COM ESQUEMAS DE PODER OU COM O RABO PRESO, POUCO FALTARÁ PARA QUE BUROCRATAS DE CERTOS ÓRGÃOS DO EXECUTIVO FAÇAM LETRA MORTA DA PRÓPRIA CONSTITUIÇÃO, ABREVIANDO , POR TAL VIA DESASTROSA, O CAMINHO PARA A RUPTURA DO ORDENAMENTO JURÍDICO, NO QUAL SOBRELEVA O PACTO FEDERATIVO, BEM COMO O DESFALECIMENTO DAS INSTITUIÇÕES.
O GOVERNO, POR DEVER DE OFÍCIO, COMO FIADOR E GUARDIÃO DO ESTADO DE DIREITO, DEVERIA SE PREOCUPAR MUITO MAIS QUE QUALQUER MORTAL COM O REFERIDO PACTO E AS GRAVES CONSEQUÊNCIAS QUE PODERÃO ADVIR , EIS QUE VÁRIOS ESTADOS VEM SENDO E SERÃO AMPUTADOS DE CONSIDERÁVEIS PARTES DE SEUS TERRITÓRIOS.

USURPANDO UM PODER ATRIBUIÇÕES CONSTITUCIONAIS DE OUTRO,NO CASO O SENADO, CONFIGURARIAM TAIS FATOS PORTAS ABERTAS PARA MUDANÇAS RADICAIS NO REGIME DEMOCRÁTICO? ENTENDO QUE A RESPOSTA PODE SER SIM, COM O ANDAR OU AS TROPELIAS DA CARRUAGEM.EVIDÊNCIAS PULULAM, SÓ NÃO VÊ QUEM NÃO QUER ...
ENQUANTO ISTO, OS TRIBUNAIS SUPERIORES SE ENREDAM EM QUESTÕES MENORES, EXCLUINDO-SE O EMBLEMÁTICO CASO DA RAPOSA DO SOL E UMA OU OUTRA DECISÃO ELEITORAL.O SENADO VIVE CRISE DE CREDIBILIDADE E PARECE ALHEIO A USURPAÇÃO DE SEUS PODERES.NADA NEM NINGUÉM COM REPRESENTATIVIDADE TÊM VONTADE POLÍTICA OU CACIFE PARA METER OS DEDOS NESTAS FERIDAS.

É BEM VERDADE QUE, EM FACE DE ANTIGAS DEFICIÊNCIAS EDUCACIONAIS, MILHÕES E MILHÕES VOTAM DECISIVAMENTE NO MISTER DE AVALIZAR UM SISTEMA ÚTIL ATÉ AQUI, MAS QUE NÃO COMPREENDEM E, CONSEQUENTEMENTE, NÃO PODEM APRIMORAR.EM INSTÂNCIAS ÚLTIMAS, O PREJUÍZO SERÁ DE TODOS, IMPOSSIBILITADA, QUEM SABE, A SADIA ALTERNÂNCIA NO PODER.
NÃO OBSTANTE, QUE SE ENCONTRAR ALGUMA FORMA DE DIZER NÃO AOS QUE INTENTAM AGORA SITUAR-SE NO CERNE DA DEMOCRACIA LANÇANDO MÃO DE INSTRUMENTOS PÚBLICOS, DE CUNHO PRETENSAMENTE SOCIAL, QUE PECAM DE MODO CAPITAL PELA BASE, EIS QUE EXTRAPOLAM LIMITES E DESAUTORIZAM LEIS EM VIGOR.NA QUESTÃO DAS RESERVAS INDÍGENAS TAIS ATOS TEM SIDO PRATICADOS SEM PARCIMÔNIA, APARENTANDO NORMALIDADE QUE NÃO TÊM ATÉ MESMO PARA PESSOAS ESCLARECIDAS, MULTIDÕES DESAVISADAS E, PASMEM, ORDENS ADVOCATÍCIAS.

EMBORA O SISTEMA POLÍTICO PERCA SUBSTÂNCIAS PURISTAS E IDEAIS REPUBLICANOS A CADA ELEIÇÃO, AINDA SE CRÊ QUE A SOCIEDADE POSSA DESENCADEAR UMA REAÇÃO DE ALCANCE NACIONAL A SER CONCRETIZADA PELA VIA POLÍTICA, APESAR DAS URNAS BOLSISTAS, INTEGRADA A INDISPENSÁVEIS MUTIRÕES DA JUSTIÇA.
TALVEZ, POR OBRA E GRAÇA DO ESCLARECIMENTO DIUTURNO E INCASÁVEL NAS ESCOLAS, NA MÍDIA, NA INTERNET OU NOS REDUTOS ONDE DOIS OU MUITOS SE REUNAM EM NOME DA VERDADEIRA DEMOCRACIA, POSSAM SER REVERTIDAS AS EXPECTATIVAS SOMBRIAS QUE SE DELINEIAM PRENUNCIANDO HORIZONTES INFELIZES, IDÉIAS SEPARATISTAS E LUTAS INTESTINAS QUE O BRASILEIRO COMUM NÃO DESEJA NEM MERECE.

terça-feira, 8 de julho de 2008

UMA PRAINHA EM VILA VELHA...

Ontem havia uma prainha aqui, uma nesga do passado
Mirando lendas ancestrais de Vila Velha.Um sigelo mar
Possível, crível, uma enseada mulher, de recatadas
Marolas, ventos suaves e doces trejeitos de abraçar,
Com horizontes sem presságios para se respirar.
Uma prainha violentada à sombra de castanheiras
E figueiras sobrenaturais trazidas de muito alem,
Em barcos antigos que vislumbrei sem ver e sem tocar.
Uma prainha da qual guardei o som, o marulhar,
E provei o sal colhendo budigões, pescando sardas, peroás.

Os antigos falavam de um ancoradouro desaparecido,
Um ícone feito de pedras negras e vontades férreas
Onde resplendia a vida deixada em terra firme,
Não nos escolhos para se sublimar, mas no aconchego do lar;
Não nos grotões do medo, mas nos momentos de alegria
Que efêmeros escorriam das moendas e alambiques;
Era a vila, em essência, um porto sem adeuses,
Ora burburinhando sagas, ora pachorrenta
Sob as vistas do paternal e ascético mosteiro.
Os pecados, o convento, se não consentia, perdoava
E só se alvoroçava nas jornadas em que aportavam
Os possessos a serem exorcizados em plena luz do dia.
E porque os demônios existiam, urros hediondos se ouviam
Ecoando na mata e nas casas devotas que espreitavam
Até que as legiões deixavam os umbrais e todos diziam
Que por força da fé e dos sagrados rituais não voltariam...


Mas voltaram...O convento recende ainda santidade,
Parece estar em paz, já não pratica vetustos exorcismos,
Mas visto de longe, tem agora álgido e cortante olhar
Divisando o mal que se esconde nos semblantes.
A prainha foi esquecida, restando o cimento, a dura certeza
De que muito mais se perdeu alem de vãs reminiscências.
A identidade soçobrou, dizem que por avoengas maldições...
Não é verdade, nada explica a malsã realidade, o que se vê,
Senão ambições e ódios ardendo ainda em muitas consciências.
Nos rochedos, incrustam-se desesperanças.Some a ave migrante
Do sonho.Muitos agora sobrenadam a verdade
Como peixes doentios mordiscando as praias imundas.
Até os impunes que se esconderam nas penumbras da lei
Sabem que o convento jamais esquecerá seus crimes.
Outros, arrogantes, ilusoriamente ainda triunfantes,
Martelam meias verdade e falácias nas musiquetas enganosas
Enquanto não chega o desfecho de não mais poderem sair às ruas
E fazer sexo mastigando siris azuis e guaiamus vermelhos
Límpidos de qualquer perversidade ou sujidade.
Seus nomes inscrever-se-ão nos claustros para a fogueira justa.
Por hora, não poderão ignorar o que salgado está na alma
E no olhar da efígie que vigia na penedia em nome das consciências
Assentada sobre ruínas invisíveis e crenças renitentes.
Os demônios da violência... Estes pululam no cotidiano. Existem sim,
Mas o convento vela por ti, Vila Velha, pelos isentos de culpa e por mim
Que mergulho em imagens fugidias e indignações tardias.